domingo, 11 de março de 2012
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Avulsos
O amor acontece no calor da escadaria,
Na cama de solteiro sem lençol e travesseiro,
Na casa da vizinha, coberta de Eternit.
****************
Moreno
Nos teus olhos poesia,
Na boca safadeza.
*****************
Deixa eu dançar ao redor de você?
Deixa eu vestir a sua saia e ir pro mundo?
Deixa eu viver e dar o que falar.
*****************
Na cama de solteiro sem lençol e travesseiro,
Na casa da vizinha, coberta de Eternit.
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Moreno
Nos teus olhos poesia,
Na boca safadeza.
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Deixa eu dançar ao redor de você?
Deixa eu vestir a sua saia e ir pro mundo?
Deixa eu viver e dar o que falar.
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domingo, 29 de janeiro de 2012
Cara a Cara, ou Os Perigos da Alegria
Hoje me deparei com a nova música de um bem quisto cantor de música sertaneja. A música, até então desconhecida, circulará numa velocidade tamanha que no próximo fim de semana certamente já estarei enjoado de tanto ouvi-la. E assim se prossegue com todos os fenômenos criados para entreter as massas e com isso construir um espírito de pertencimento, de irmandade, uma ideia ilusória de que por meio de uma música exista uma característica que una a todos nós.
Esse fenômeno de pertencimento é facilmente percebido quando observamos a negação, o distanciamento e por vezes e total estranhamento com a cultura do outro, aquela que não se apresenta a nós como esse fenômeno de união das massas. A regra que impera é a alegria, mesmo que exacerbada, mas a alegria.
Ninguém ousaria contestar a alegria caso isso não se apresentasse para nós como um fenômeno de extrema passividade. Eu, por exemplo, se estivesse alegre nesse momento certamente não estaria pensando em escrever esse texto. E aí mora o perigo: o excesso de alegria nos priva de criar ideias, de tentar o novo, de questionar o que já está posto. E me parece que esses fenômenos midiáticos das músicas das massas faz isso com o sujeito: o torna tão alegre, mas tão alegre que faz dele um capacho dessa tal alegria. O incuti com tanta voracidade nessa zona de conforto que o impede de criticar, de rever conceitos, de perceber problemas tão visíveis a olho nu.
A alegria cega. Cria-se a ideia de que tudo anda bem porque todos pertencem a essa realidade de alegria a qual eu estou pertencendo agora. Mesmo que falte o feijão, tudo anda bem. Mesmo que me explorem no trabalho, tudo anda bem. Mesmo que existam pessoas vitimizadas pelo preconceito, tudo anda bem. Mesmo que eu não seja feliz, tudo anda bem. Tenho a alegria.
E a inteligência do mercado da alegria é tanta que parece já haver um diagnóstico da população que pretende viver essa alegria exacerbada, criando-lhes mecanismo para que essa alegria seja reabastecida sem prejuízo. Assim criam-se os sucessos da semana, as músicas descartáveis que ocupam o espaço vazio que se existisse seria o espaço do tormento.
Aos alegres de plantão, não se preocupem: ‘Ai se eu te pego’ é apenas o começo. O mercado da alegria é eficaz. Cara a cara com a solidão, jamais.
Esse fenômeno de pertencimento é facilmente percebido quando observamos a negação, o distanciamento e por vezes e total estranhamento com a cultura do outro, aquela que não se apresenta a nós como esse fenômeno de união das massas. A regra que impera é a alegria, mesmo que exacerbada, mas a alegria.
Ninguém ousaria contestar a alegria caso isso não se apresentasse para nós como um fenômeno de extrema passividade. Eu, por exemplo, se estivesse alegre nesse momento certamente não estaria pensando em escrever esse texto. E aí mora o perigo: o excesso de alegria nos priva de criar ideias, de tentar o novo, de questionar o que já está posto. E me parece que esses fenômenos midiáticos das músicas das massas faz isso com o sujeito: o torna tão alegre, mas tão alegre que faz dele um capacho dessa tal alegria. O incuti com tanta voracidade nessa zona de conforto que o impede de criticar, de rever conceitos, de perceber problemas tão visíveis a olho nu.
A alegria cega. Cria-se a ideia de que tudo anda bem porque todos pertencem a essa realidade de alegria a qual eu estou pertencendo agora. Mesmo que falte o feijão, tudo anda bem. Mesmo que me explorem no trabalho, tudo anda bem. Mesmo que existam pessoas vitimizadas pelo preconceito, tudo anda bem. Mesmo que eu não seja feliz, tudo anda bem. Tenho a alegria.
E a inteligência do mercado da alegria é tanta que parece já haver um diagnóstico da população que pretende viver essa alegria exacerbada, criando-lhes mecanismo para que essa alegria seja reabastecida sem prejuízo. Assim criam-se os sucessos da semana, as músicas descartáveis que ocupam o espaço vazio que se existisse seria o espaço do tormento.
Aos alegres de plantão, não se preocupem: ‘Ai se eu te pego’ é apenas o começo. O mercado da alegria é eficaz. Cara a cara com a solidão, jamais.
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Quando é que o amor me acontece?
Quando é que o amor me acontece?
Nos encontros abruptos em portas de botecos,
Nas saídas de lojas e entradas de igrejas,
No olhar desconcertado no corpo suado do menino jogando pelada,
Nos pés descalços de quem colhe laranja no pé.
O amor me acontece na fila do banco,
Nas páginas de revistas com imagens estáticas,
Em copos e copos de álcool que me impossibilitam a distinção de corpos,
E nos mares de euforia de adolescentes a se encontrar.
Não é que seja descartável o amor que sinto,
é que o meu é efêmero, transitório, poliamor.
Nos encontros abruptos em portas de botecos,
Nas saídas de lojas e entradas de igrejas,
No olhar desconcertado no corpo suado do menino jogando pelada,
Nos pés descalços de quem colhe laranja no pé.
O amor me acontece na fila do banco,
Nas páginas de revistas com imagens estáticas,
Em copos e copos de álcool que me impossibilitam a distinção de corpos,
E nos mares de euforia de adolescentes a se encontrar.
Não é que seja descartável o amor que sinto,
é que o meu é efêmero, transitório, poliamor.
domingo, 22 de janeiro de 2012
Translirismo
Há um certo lirismo nos banheiros dos bares do lugar onde vivo.
A mágica Guapirama é onde o sorriso dos meninos se afloram aos doze,
e ressurge um carnaval todas as noites nos corpos de cristãos e efeminados,
nas ruas e nos becos,
em casas e botecos.
E assim se constroem as histórias que as beatas contam indignadas.
A mágica Guapirama é onde o sorriso dos meninos se afloram aos doze,
e ressurge um carnaval todas as noites nos corpos de cristãos e efeminados,
nas ruas e nos becos,
em casas e botecos.
E assim se constroem as histórias que as beatas contam indignadas.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Homoerotismo
E era um moletom cheirando a guardado.
A cidade era mágica,
O campo era mágico,
Oferecendo um espaço que era só meu
e do moletom velho e mofado.
E a cidade era grávida,
Como eu jamais poderia ser.
O moletom esticado ao chão,
Meu corpo contorcendo no dele,
No chão frio da cidade grávida.
Mofo, azedume,
Era cheiro de falta.
Não se pensava em mais nada,
Não se falava em hora sagrada,
Nem o mofo, nem a fome, nem o ranger dos dentes excitados impediam que o amor vingasse.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Saudosismo
As vezes vejo meu avô cortando fumo de corda. Raramente penso sobre o quanto aquilo possui um valor para ele, uma beleza, um sentimento que ele guarda pra si com medo de ninguém compreendê-lo. Menos ainda é o tempo que paro pra pensar que, quando não obstante essa geração do meu avô se extinguir o fumo de corda tenderá a se acabar, sumir do mapa, virar lenda, ocupar páginas de livros e fotografias de museus. Adélia Prado, divina poetisa, mulher, brasileira, saudosista e amante, sempre faz questão de me lembrar o quanto a fluidez do mundo nos deixa à mercê da saudade, fluidez essa que alguns insistem em chamar de dinâmica social, tão corrosiva dinâmica que vai levando tudo feito roda-viva. Em um de seus poemas Adélia nos lembra sobre a beleza e a simplicidade de viver no interior. O domingo no interior é encantador, com as bicicletas, as laranjas descascadas desapressadamente embaixo de uma árvore, o aro, o sumo da laranja, o bagaço da laranja, o cheiro dela. Ah, o cheiro da laranja. Isso se chama mesmo saudade. O progresso técno-ilógico, dito num tom fortemente crítico por Adélia é o progresso que abafa o sentimento humano, que nos faz sentir necessidade de mudança sem ao menos decidirmos por ela. A laranja já não se colhe mais do pé, o fumo de corda quase não se encontra por aí. Já não se vê bicicletas e seus aros enfeitados, não se vê pessoas conversando na calçada, não se perde tempo, não se vê o tempo. Nesse momento de progresso, onde a querida Adélia preferiria nem tem vivido, o homem progride a caminho da morte, contando dinheiro, engravatando e enfeitando os seus.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Poema Simplesinho
Simplesinha de tudo.
Esquiva e estranha.
De pele branca,
Mas de alma não.
Apavora-se ao descobrir-se habitante dos sonhos dos rapazes,
Apavora-se quando representa objeto de cobiça,
Apavora-se quando questionada se sexuada.
Veste a pele de mulher
Pela comodidade que isso representa.
Mas recusa-se ao excesso que não lhe convém.
Se assemelha à moça da janela,
Que ora ele, ora ela,
Transita entre gêneros também.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Ao amigo Andreas
Amigo Andreas,
Venho através dessa primeiramente para te fazer lembrar que eu existo.
Hoje, ao caminhar por uma rua qualquer, dessas que é costumeiro trombar com qualquer conhecido nas esquinas, acabei trombando com um corpo admirável. Era, no entanto, desconhecido.
O corpo parecia sim ser algo ainda em construção. Mas a facilidade com que fui ignorado por ele me fez ter os escrúpulos exauridos, e olhei para trás para acompanhar com os olhos o caminhar daquele corpo. Acompanhei com os olhos até onde a vista foi capaz de alcançar, depois disso, cheguei em casa e não me restou mais nada além de escrever esse texto inútil.
Quando penso em você, Andreas, penso que amigo como tu não há. Te escrevo também porque o ocorrido de hoje me fez lembrar de uns tempos em que refletíamos sobre as hipocrisias do mundo. Eramos tolos. Queríamos ser a juventude revolucionária, mas tínhamos todos os predicados de conservadores. Hoje penso no sexo e, mesmo não querendo dissociá-lo de algo político, prefiro tratá-lo de forma poética, desnudada, sem propósito de transformação dos conceitos dos outros, mas ao ponto de incomodar os leitores com a minha poesia. Quando se luta por liberdade Andreas, quando se levanta bandeira e escancara a ideia de que se quer libertar, ficamos presos e acorrentados por aquela hipocrisia que ainda ontem criticávamos. A luta por liberdade exige prática, caro amigo. Mas sobre isso precisamos conversar pessoalmente.
Hoje vi aquele corpo bonito. Coisa pequena, que não me falou um 'oi', não me acenou com a 'mão' e provavelmente não imagina que há nesse momento alguém tentando poetizar a sua passagem.
Esse corpo nem deve saber o que é poesia, Andreas.
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Considerações sobre o roubo
E levaram do homem tudo o que ele tinha. Os potes de doce caseiro, o anel do terceiro casamento e a maconha, único medicamento das noites que lhe batia insônia.
Considerações sobre o acaso
as coisas vão fluindo, o mundo muda
as vezes a saudade bate
como um martelinho que nem sabe onde bater
e acaba estragando o que já tá posto
as vezes a saudade bate
como um martelinho que nem sabe onde bater
e acaba estragando o que já tá posto
domingo, 11 de setembro de 2011
Comê-lo
Do lábio rosado brotava sorriso amarelo. Na face um olhar de ressaca e um incômodo. Havia um desejo, movido por não sei o que, mas que me punha na vontade em permanecer uns minutos a mais ao lado dele. A voz de aluno sussurrando, parece prece ao pé do ouvido. A gargalhada é lírica, incessante e incansável. Minhas mãos apalpando seus órgãos, parece cinema de Almodóvar. Há um desejo de tê-lo, comê-lo, experimentá-lo a cada dia um pouco mais. Parece sonho de sono preocupado. Saciar-me é desafiante, desafio é estímulo à má digestão.
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Maria Adélia
Dona Maria Adélia, descendente de portugueses, não carregava na vida as peculiaridades dos antepassados. Três ou quatro gerações já se haviam ido e Maria Adélia se tornara brasileira. Lutava contra uma enfermidade que não sabia ao certo explicar qual era, mas fazia dos bancos de hospital seu local de sufocar solidão. Maria Adélia morava sozinha, viúva, não tinha filhos, apenas se orgulhava de ter dado a luz ao maior número de crianças naquele lugarejo sem ter ficado prenha uma vez sequer. Falava isso sorrindo, e perguntava aos doutores que a tratavam se eles saberiam dizer como isso era possível. Maria Adélia, cheirando a cachaça, em gargalhadas dizia em alto em bom tom que tinha sido “parteira”, nos tempos em que doutores não se ocupavam de tal ofício. Era analfabeta, mas a leitura formal não lhe fazia falta. Da tradição familiar carregava um dom que ela jurava ser divino, fazia “benzimento”, curava cobreiro, mal olhado, quebranto e qualquer tipo de mandinga que sua vivência de mundo lhe pudera fazer conhecer. Nunca comprou frutas ou verduras, colhia laranjas do pé para chupar depois do almoço. Da venda ela não precisava de quase nada, somente o sal, a banha e a cachaça. De tanto beber dizem-se hoje que morreu de cirrose. Na época não se sabia explicar ao certo, diziam que de tanto beber ela havia morrido de felicidade.
domingo, 21 de agosto de 2011
Incesto
Olhou daquela vez como se fosse a última.
E olhou com olhar de desejo,
assim também foi olhado.
Frutos do mesmo rebento,
mas qual?
Não consultaram livros sagrados,
nem tratados, nem constituição.
Apenas foram e fizeram.
Walmor Chagas F. Oliveira
E olhou com olhar de desejo,
assim também foi olhado.
Frutos do mesmo rebento,
mas qual?
Não consultaram livros sagrados,
nem tratados, nem constituição.
Apenas foram e fizeram.
Walmor Chagas F. Oliveira
domingo, 14 de agosto de 2011
Mas na psique da mulher...
"Em muitos países do mundo a garota
Também não tem o direito de ser.
Alguns até costumam fazer
Aquela cruel clitorectomia.
Mas no Brasil ocidental civilizado
Não extraímos uma unha sequer
Porém na psique da mulher
Destruímos a mulher".
(TOM ZÉ)
terça-feira, 2 de agosto de 2011
E se ela for de samba há de querer ficar...
Quando faz calor eu espero o frio pra escrever poema. Aí chega o frio, preguiçoso e romântico. Europeizado demais talvez, para quem o sente em noites mal dormidas com vento atravessando frestas das paredes nos casebres. Mas ali está ele! No auge do meu egoísmo, o frio, que vocifera: ócio e romantismo são combinações que se vivessem separados provavelmente não fariam sentido. Daí a Bossa Nova, que retirou do samba o sabor amargo da boca. O samba, tristeza musicada, não carrega em si esse espírito de ócio. O samba é da cachaça depois do batente, é do trabalho sim, senhor. É tão mais simples falar de amor no inverno, quando ele vocifera palavras que aquecem o corpo de quem tem cobertor. Mas é difícil musicar a fome e os tropeços da vida, só no samba isso se faz. O sambista é antes de tudo um forte.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Umas e outras
Sabão no pescoço e nos mamilos.
É preciso lavar a sujeira da noite,
As mordidas,
Os suores,
Mandar para o ralo as canseiras de mártir.
É preciso dormir,
Mas puro,
Com sensação de limpeza,
E renovado pra sonhar com amor,
E esperar a amada fingindo pureza.
É preciso esquecer que vive no lodo,
Esquecer o molambo,
As roupas de cama,
O látex, os gemidos, os parceiros sem escolha,
E o som das películas que se repetem no expediente.
É preciso guardar o ordenado,
Dos corpos molhados,
Dos dentes cravados, rangendo,
Das palavras tantas vezes repetidas,
Das peripécias de obter o pão com o prazer alheio.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Canção de Amor
De repente me bateu um desejo de compor uma canção de amor. Mas não podia, eu estava em sala de aula. Os homens, governantes e gestores dão demasiada importância às paredes e aos muros. As paredes bonitas e pintadas são sinônimos de escola modelo. Fazenda modelo. Tá aí o ofício do educador, e para isso direi somente em metáforas: mais que ensinar é preciso domar, sem entusiasmo, somente domar e estar nos holofotes. Educador que deseja obter respeito na escola em que trabalha, doma. Preserva os muros e os acha lindos, e não deixa que os alunos rabisquem as paredes das salas de aulas. Paredes são jaulas. Manoel de Barros, o poeta vagabundo, nos ensina a questionar: ”Que a palavra parede não seja símbolo de obstáculos à liberdade, nem de desejos reprimidos, nem de proibições na infância”. Péssima influência pra Fazenda Modelo essa tal de Manoel. Na escola não há espaço para a poesia. Ainda menos tempo para compor uma canção de amor.
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Insight
Os olhos negros reluziam feito a mais madura jabuticaba. Eram treze carnavais vividos, e acabava de descobrir alguns de seus predicados que o inquietava. No rosto uma espinha aqui e outra acolá. No quarto toda voracidade de menino novo explorando alguns dos predicados recém-descobertos. Estranhava-se com as revistas de mulheres nuas, com suas nuances pouco atrativas e posições demasiadamente adultas para uma necessidade simples de menino que deseja mais corpo e menos sensualidade. Explorava seu corpinho e sentia necessidade de explorar os outros, de conhecer os outros e descobrir as novidades. Menino tem costume de achar que o outro conhece coisas bem mais diferentes que ele, e aí explora. A escola passa a ser chata depois de um tempo. O corpo passa a ser prioritário, o compartilhamento do prazer parece algo que satisfaça, aí aparecem os outros. Os iguais são diferentes. Depois da escola, os amigos no quarto. Reveem as revistas que todos olham e estranham-se calados. Masturbam-se com ela. A vontade mesmo é ver o corpo do outro, é tocar o sexo do outro. Enquanto a mãe prepara o lanche da tarde os meninos trancados no quarto se conhecem. Os desejos afloram. Não há certo e errado ali. Competem na quantidade de pelos, no tamanho do pênis e na distância da ejaculação. Mas o que querem realmente – e isso eles nunca falam – é obter o maior prazer possível compartilhado com o outro. Depois se destrancam do quarto, com a mão do prazer vão direto ao bolo. Enquanto isso a TV continua ligada sem terem jogado sequer uma partida no vídeo game.
O tempo corre, as vergonhas aparecem. Um ama a mulher antes julgada feia, o outro não esquece a cena da adolescência. Depois de um tempo de distância o que fora embora volta ao interior a passeio, ao se encontrarem no cruzamento da esquina as lembranças dos velhos tempos. A janela do quarto é a serventia da casa. E os amigos tornam a matar o desejo que o tempo havia oprimido.
sábado, 11 de junho de 2011
O não-filho de Cissa
“Há quase um ano um adolescente carioca, filho da atriz Cissa Guimarães foi morto em um acidente brutal quando se divertia com amigos andando de skate em um túnel interditado. A morte do jovem, causada por um motorista imprudente ocupou grande espaço na mídia nacional, causando indignação e revolta na população do país. A história a seguir não é do filho de Cissa Guimarães, e a morte, embora também tenha ocorrido por acidente (tão imprudente quanto a outra) não é vista com a indignação com que se viu a morte do filho de Cissa”.Até não duvido que a morte tenha sido acidental, o que não anula o desejo implícito de extermínio de estorvos bastante presente no imaginário social. Os representantes da lei possuem armas, possuem força e fazem demasiado uso dela. Os adolescentes – nesse caso o que perdeu a vida – possuía as pernas como única arma, e por sinal bastante treinadas para correr da polícia.
O assunto parece batido. Prova disso é que mesmo os programas mais sensacionalistas não deram grande espaço a ele. E como no Brasil tudo que é repetitivo passa a ser naturalizado, já vejo nos textos jornalísticos mais que um tom de conformismo, aliás, vejo uma tentativa de encontrar justificativa para esses fatos ocorrerem. Primeiramente porque poucos questionam o demasiado uso de força pelos policiais. Segundo porque o fato se repete quase sempre nas periferias das grandes cidades. E terceiro porque aparentemente o tema envolve drogas e é mais fácil conservar valores intocáveis sobre a criminalização do uso de drogas do que inverter a velha ordem do sistema e perceber que muitas vidas poderiam ser poupadas caso a legislação sobre drogas fosse revista.
O policial está ali em nome da lei, ele a representa. Grita com o adolescente que carrega uma sacola suspeita. O que faz com que essa sacola seja suspeita? Talvez a cor do adolescente, o bairro onde ele mora, o horário em que ele se encontrava na rua e também por andar em bandos. Após o grito do policial os adolescentes correm, talvez por simples medo ou talvez porque realmente carregavam algum tipo de drogas para curtirem uma brisa antes de voltarem à realidade dos seus lares.
Essa arma parece ser desafiadora. Que mundo é este onde adolescente pobre de periferia ousa desobedecer a uma ordem policial? Mesmo evidenciada a capacidade inofensiva dos jovens ao correrem, os policiais insistem em retirar a arma e correm atrás dos adolescentes. Após alcança-los, um deles aponta-lhes a arma. Ninguém informa os pormenores, mas por acidente ou não a arma dispara, e o tiro atinge a cabeça de um menor. O adolescente morre após chegar ao hospital. O policial estava em serviço, para a maioria da população o uso da força nesse caso é justificável. O assunto, apesar de polêmico, não gera a discussão que deveria. Minha mãe desliga a televisão, evita pensar um pouco. Eu não insisto para que ela se manifeste, tenho medo de ouvir ela dizer que o policial foi um herói. Na minha cabeça continua martelando a voz da jornalista dizendo: o tiro foi acidental. O policial foi preso, mas vai responder por homicídio culposo, quando a pessoa não tem a intenção de matar. Alegou que escorregou ao correr atrás dos adolescentes. Parece que ninguém coloca em questão a utilização da força policial e se naturaliza do uso indiscriminado dela. Ora, por que cargas d’água um policial engatilha uma arma para correr atrás de adolescentes a não ser para causar-lhe algum tipo de tortura?
Provavelmente será solto, receberá algumas advertências – e por debaixo dos panos algumas condecorações – e sairá livre.
E à família do adolescente agora só resta o choro, a vela e pesado fardo de ficar encarregada do sepultamento de seu menino.
E à família do adolescente agora só resta o choro, a vela e pesado fardo de ficar encarregada do sepultamento de seu menino.
terça-feira, 26 de abril de 2011
Não basta aceitar, tem que criar asas...

Em um de seus belíssimos textos Rubem Alves afirma que há escolas que são asas e outras que são gaiolas. Sempre me coloco a refletir sobre essa frase tentando me enquadrar em um desses dois opostos, o que sempre vai culminar em frustração por minha parte.
Quando penso em nossas escolas, ambiente heterogêneo, onde a diversidade social, étnica, religiosa, sexual e cultural está sempre presente, penso sobre o que vem, de fato, a ser uma escola que cria asas nos alunos. Ora, asas servem pra voar, mas de nada adiantaria voar para lugares pré-determinados, portanto, além de voar, asas simbolizam liberdade. Isso me faz ter plena certeza de que escolas que criam asas são escolas que além de ter o comprometimento com o bom aprendizado do aluno, de cumprir com conteúdos programáticos e dar conta do planejamento anual, também entende que alunos são humanos, e assim o ensina a ser livre.
Tenho por mim que não dá para ser livre acorrentado a preconceitos, característica essa que historicamente acompanha a realidade educacional brasileira. E é com esse objetivo, de construir uma escola que crie asas e não gaiolas, que acredito na importância de se contemplar os temas transversais da educação.
A questão da diversidade sexual, a qual eu particularmente me atenho com maior profundidade se torna para mim um importante objeto de reflexão e cuidado. Principalmente quando representantes do povo brasileiros, de homossexuais e heterossexuais que votam para eleger um deputado, destilam em alto e bom tom em rede nacional comentários de extrema grosseria e desrespeito a cidadãos que são, acima de tudo, sujeitos integrantes de um mundo tão diversificado e plural. Os comentários homofóbicos e racistas do deputado federal Jair Bolsonaro do Rio de Janeiro, causou indignação em grande parte da população que mesmo não fazendo parte de movimentos de militância, possuem a idéia de que o respeito às diferenças deva ser o mínimo que se pode esperar de alguém que representa a sociedade no meio político.
Bolsonaro, figura caricata no meio político, é apenas um representante ousado de uma considerável parcela da população que compactua de um pensamento tão discriminatório quanto o dele. Pensamento esse, que, mesmo sendo combatido não obstantemente podemos encontrá-lo no espaço escolar. E é exatamente nesse ponto que a escola que deseja criar asas deveria se pautar.
Independente de posicionamentos morais e religiosos de educadores, é necessário compreender que uma escola que pretende ser inclusiva e aberta a todos(as), deve lutar para que essa inclusão ocorra de forma efetiva. Quando converso com alguns(as) educadores(as) sempre ouço o lamentável comentário de que “o que é possível já está sendo feito, ou seja, a escola aceita a presença de todos sem discriminação, o que está além disso, é questão de foro íntimo e não diz respeito à escola”. Confesso que me sinto muito insatisfeito e por vezes triste com esse tipo de colocação, quando falamos em respeito e valorização da diversidade temos que ter em mente que isso vai muito além da simples aceitação da matrícula de alunos e alunas, mas a oferta de um ambiente não-hostil, não excludente e que, acima de tudo, ofereça ao estudante sujeito da diversidade motivos suficientes para desejar fazer parte daquele ambiente.
No ponto de vista da sexualidade, é sempre importante lembrar as palavras do incansável educador Paulo Freire:
“Ninguém vive bem sua sexualidade numa sociedade restritiva, tão hipócrita e falseadora de valores, [...] uma sociedade que nasceu negando o corpo. [...] É preciso viver relativamente bem a sexualidade. Não podemos assumir com êxito pelo menos relativo, a paternidade, a maternidade, o professorado, a política, sem que estejamos mais ou menos em paz com a sexualidade.”
Na Conferência Nacional da Educação (CONAE) realizada no ano de 2010, entre os eixos discutidos, a questão da valorização da diversidade no ambiente escolar foi um dos assuntos de pauta. O Documento Final da conferência, que foi disponibilizado para todas as escolas brasileiras esse ano com apoio do Ministério da Educação e da Presidência da República aponta para todos nós quais são as verdadeiras prioridades levantadas pela sociedade civil e demais participantes dessa conferência. Na questão do combate ao preconceito e valorização da diversidade as mudanças acontecerão desde a escolha dos livros didáticos, passando pela formação dos professores, oferta de capacitações, políticas afirmativas, direito ao nome social de travestis e transexuais no ambiente escolar, estímulo a produção nacional de materiais didáticos e para-didáticos que contemplem o tema do respeito e valorização das diferenças, aumento do acervo nas bibliotecas das escolas sobre a temática, aprimoração do Programa Escola Sem Homofobia, evitar a evasão escolar motivadas por homofobia e outros tipos de preconceito.
Acredito que a CONAE tenha dado um grande passo na construção de uma escola menos excludente, e que o apoio dos governantes, como é o caso da presidenta Dilma, que declarou abertamente o combate a todo tipo de discriminação nas escolas também sirva como respaldo para um trabalho mais incansável, mas o desafio é muito maior que esse. A vontade de emancipar deve estar presente em nosso trabalho docente. Emancipar não somente no sentido de aprendizado de conteúdos e sucesso profissional, mas no sentido de construir dia-a-dia e passo a passo uma sociedade mais harmônica, uma escola que seja, como diz o ditado, de verdade a nossa segunda casa.
quarta-feira, 30 de março de 2011
O corpo livre: sexo não é reprodução.

Que sexualidade não se reduz à reprodução todos já estão cansados de saber. Aliás, sexo no imaginário contemporâneo já se tornou quase que o antônimo de reprodução. Os tabus do sexo antes do casamento, do coito anal, sexo oral, sexo em grupo e diversas outras modalidades de prazer que fogem do modelo papai-mamãe já não são vistos no mundo contemporâneo com um olhar medievalesco, em alguns casos são vistos como alternativas que, além de desejadas também servem como métodos contraceptivos, proporcionando possibilidades reais de prazer diante de tantas outras possibilidades no campo da sexualidade. É lógico que essas alternativas de prazes sexual sempre existiram, embora reprimidas elas sempre fizeram parte da rica diversidade sexual da humanidade.
No clássico papai-mamãe, que faz a combinação de pênis com vagina, estão sendo invetadas e aperfeiçoadas todas as alternativas para atenuar o antagonismo sexo X reprodução. O mercado oferece produtos para os mocinhos e as mocinhas, a TV também oferece instrução, embora lamentavelmente estereotipada.
Alguns conservadores ao ler esse texto poderão agir como o esperado, mandando-me para o inferno. Mas estou seguro em dizer que o prazer sexual, nas mais variadas manifestações procura alternativas para se afastar daquilo que por séculos quiseram nos dizer que era a finalidade de um ato sexual: a gravidez. Ora, que ridicularização dos corpos, que negação dos desejos, que negação da subjetividade humana, daquele que expõe suas vontades à flor da pele. Reduzir a sexualidade à condição mecânica é negar o corpo que fala e dialoga com o mundo.
Embora não se possa negar o caráter biológico dos corpos e nem se pode alterar voluntariamente esse curso evolutivo, temos que nos conformar com a possibilidade de um deslize acidental na busca dos prazeres. No entanto, somos humanos, e por sermos humanos parece-me muito estranho insistirmos durante séculos na proibição da intervenção desses deslizes. Obviamente se perguntarmos aos jovens, eles não nos dirão que gostariam de ser estéreis, até porque muitos se conformam em chupar bala com casca, mas se eles pudessem (ah se pudessem!) prefeririam comprar seus filhos no supermercado. A sexualidade é boa demais para carregar consigo esse pesado fardo da procriação.
domingo, 23 de janeiro de 2011
Amor igual ao teu, moreno.
EU QUERIA UM AMOR PRA VIDA TODA,
DAQUELE QUE SE PERPETUA NA ETERNA MONOTONIA,
E QUE NÃO SE CANSA DA MESMICE,
POR SABER QUE É AMOR.
AQUELE QUE DORME E ACORDA SABENDO O QUE HÁ POR VIR,
E RI COM A MESMA INTENSIDADE
ASSINTINDO AO FILME
TANTAS VEZES JÁ VISTO.
EU QUERIA UM AMOR
PARA PODER CHAMÁ-LO ASSIM,
PARA SER FELIZ SÓ POR ESTAR JUNTO
E ESTAR JUNTO SÓ POR SER A SOLIDÃO UM TORMENTO.
UM AMOR IGUAL AO TEU, MORENO,
QUE COME E BEBE JUNTO,
QUE SE ESBALDA EM SEXO BEM FEITO,
MESMO QUE IDÊNTICO AO QUE FIZEMOS ONTEM.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Um dedo de cólera.

Invadiu o centro do espelho,
Ele, ao fundo ria das minhas poses,
E com o dedo me apontava indecências.
Depois,
cansado de olhar, me botava de quatro,
E o compromisso passava a ser dele.
Cheio de cansaço,
Eu deitava sobre seu peito,
Que saltava de tanta euforia,
Fazendo-me perder a noção
Dos compromissos que ainda tinha.
Assim a gente se amava,
Cozinhava e comia,
Reinventava palavrões
Nunca antes pensados.
Lutava com ardor para fazer o outro feliz.
Minha felicidade era seu corpo nu,
Onde minha mão passeava
Sovando sua carne macia.
Ao amanhecer,
um dedo de cólera.
Quando arrependido ele resolvia partir.
um dedo de cólera.
Quando arrependido ele resolvia partir.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Amadeiro
Como num romance, cheguei morto de vergonha no quarto que me recebia.
Com um feche de luz clareando apenas o suficiente a orientar o meu caminho até o outro.
A alcova, senhores, não era para mim um privilégio, como por muito tempo sonhei. Era esconderijo de repetidos homem, muitos deles infelizes como eu.
Olhos nos olhos, poucas vezes nos olhamos, mas seu toque ensaiado fazia-me sentir por alguns instantes desejado.
No fim, quando não haviam mais sonhos, restaram apenas as indagações curiosas de um amante de garoto amadeiro.
Amadeiro pelo pão. Que se ama pelos vãos, recebendo por amor bem feito, e despedindo-se pela porta dos fundos.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Terrorismo Psicológico

Estamos há poucos dias da eleição presidencial de 2º turno. Eleição que, há menos de dois meses parecia improvável, pois quase não existia dúvida que a candidata do PT sairia vitoriosa ainda no 1º turno. No entanto, quando tudo parece definido surgem questões subalternas que, de forma ou de outra acabam sendo definitivas para fazer com que o caminho que parecia definido se altere e o jogo recomece.
Tenho por mim que o princípio das discussões e decisões políticas devem ter como foco o povo. Essa é a soberania. As necessidades do povo devem estar situadas no centro dos debates eleitorais. O povo, nesse sentido, deve ser entendido como a totalidade de uma massa que possui características peculiares e diversificadas, com desejos e necessidades particulares. Ora, uma democracia, no sentido moderno da mesma, deveria possuir, entre outras coisas, a característica de atenção às necessidades diversas do povo de uma nação. Não é mais apenas a maioria que tem voz e tem vez, não é apenas um desejo e uma única necessidade que deve ser contemplada, mas deve-se ter um esforço constante de atenção ao bem estar de uma considerável parcela da população.
Eis que na reta final da corrida à presidência surge uma campanha negativa, claramente oposicionista, que aparece com a árdua tarefa de evitar uma vitória petista no primeiro turno. Ora, parece que desqualificar um candidato pelo gênero não colaria mais como melhor opção. Os tucanos, com toda sua astúcia, não ousariam a se opor a duas grandes forças no cenário dos postulantes à presidência. Parecia que alguns pontos ainda não superados pelo senso comum da política poderiam fazer toda a diferença. Eis que entra em cena os assuntos que vem ocupando as conversas entre vizinhos, no trabalho, e nos ambientes sociais. A campanha negativa, anti-Dilma e anti-PT tiveram como ponto de partida a internet, e, a partir de e-mails e redes sociais vem alterando semanalmente os índices de intenção de voto dos principais institutos de pesquisas nacionais.
Aborto, união civil de casais homossexuais, ateísmo, terrorismo, entre outros tomaram conta das discussões entre amigos quando o assunto é eleição presidencial. Ora, por que o escândalo da Casa Civil não tomou essa dimensão? Por que o atrito entre governo do estado e professores no estado de São Paulo não despertou no brasileiro essa necessidade de repensar o rumo do país? Ao contrário, foram assunto subalternos, pormenores, na maioria das vezes de foro íntimo que se tornaram o principal critério de escolha de voto à presidente da República.
Os oposicionistas foram perspicazes. Serra e o PSDB não começaram vinculando calúnias contra a adversária já no início de seu horário eleitoral. Esperaram, pois sabiam que uma força anti-PT caminhava muito fortemente para uma campanha anônima via web, e que em um momento oportuno o ataque seria fatal. As declarações dadas por Dilma Rousseff sobre o aborto não são nada polêmicas para quem já se envolve há algum tempo com esse tipo de discussão, mas demonstrou ser ainda muito arriscado para pessoa que postula a cadeira máxima de um cargo executivo no país. A democracia que vivemos na prática é aquela que obriga os candidatos a se moldarem, a serem cristãos mesmo não sendo, a atentarem contra a liberdade da mulher em nome de um princípio divino, a impedirem a luta de direitos de minorias porque a maioria se incomoda com o modo de vida que os levam à dignidade. A democracia brasileira, que permite que meios de comunicação demitam jornalistas por possuirem posicionamentos políticos divergentes, também permite esse terrorismo psicológico, permite que partidos utilizem a fé, o sentimentalismo e os valores de pessoas simples e transformem isso em foco principal para conquista de votos. Partidos, para reverter a situação de jogo perdido fazem da democracia brasileira o maior escarcéu, e botam na boca de pessoas que nunca assistiram a um debate político dezenas de argumentos para não votar em determinado candidato. Pior que isso, fazem com que pessoas se sintam responsáveis, culpadas por uma decisão mal feita, tornando-as militantes de uma não-causa, de um terrorismo psicológico de pessoas que nem vêem a fome e o desemprego como prioridades, mas a universalização de valores individuais.
As calúnias e mentiras que vem tomando conta do Brasil nesse período de campanha vem demonstrando que na política brasileira ainda vale tudo. Vale a negação de direitos, vale apelação para o ódio étnico, cultural e religioso, vale a persuasão e o terrorismo psicológico. Demonstra-se também que os ataques a valores que não sejam cristãos, heteronormativos e padronizados continuam sendo ainda a melhor forma de tentativa derrubar um candidato. Nem as calúnias, as mentiras, as privatizações,as paulada em professores, as alianças suspeitas com os meios de comunicação surtem tanto efeito como o preconceito. E aí a população se torna a vítima. Uma vítima que acredita ser autônoma, e que, quando resiste aos ataques e decide não mudar seu voto, acaba ficando em silêncio e não manifestando seu apoio a um candidato massificadamente rejeitado pelo senso comum político.
Temo em dizer que o senso comum político não nasce da massa, mas para a massa. Ora, minha avó que nunca acessou internet na vida não deixa de ser vítima das calúnias eleitoreiras que surgem nesse momento. Mas fica ainda a esperança, de que a história do Brasil nesse início dessa segunda década do século XXI será marcada pela resistência, e o povo, na sua maioria vai cumprir a trajetória, mesmo que moralmente amordaçado, mesmo sob terrorismo psicológico, para escolher um Brasil para todos, com mais liberdade, amor, e olhar preferencial para aqueles que mais necessitam.
Tenho por mim que o princípio das discussões e decisões políticas devem ter como foco o povo. Essa é a soberania. As necessidades do povo devem estar situadas no centro dos debates eleitorais. O povo, nesse sentido, deve ser entendido como a totalidade de uma massa que possui características peculiares e diversificadas, com desejos e necessidades particulares. Ora, uma democracia, no sentido moderno da mesma, deveria possuir, entre outras coisas, a característica de atenção às necessidades diversas do povo de uma nação. Não é mais apenas a maioria que tem voz e tem vez, não é apenas um desejo e uma única necessidade que deve ser contemplada, mas deve-se ter um esforço constante de atenção ao bem estar de uma considerável parcela da população.
Eis que na reta final da corrida à presidência surge uma campanha negativa, claramente oposicionista, que aparece com a árdua tarefa de evitar uma vitória petista no primeiro turno. Ora, parece que desqualificar um candidato pelo gênero não colaria mais como melhor opção. Os tucanos, com toda sua astúcia, não ousariam a se opor a duas grandes forças no cenário dos postulantes à presidência. Parecia que alguns pontos ainda não superados pelo senso comum da política poderiam fazer toda a diferença. Eis que entra em cena os assuntos que vem ocupando as conversas entre vizinhos, no trabalho, e nos ambientes sociais. A campanha negativa, anti-Dilma e anti-PT tiveram como ponto de partida a internet, e, a partir de e-mails e redes sociais vem alterando semanalmente os índices de intenção de voto dos principais institutos de pesquisas nacionais.
Aborto, união civil de casais homossexuais, ateísmo, terrorismo, entre outros tomaram conta das discussões entre amigos quando o assunto é eleição presidencial. Ora, por que o escândalo da Casa Civil não tomou essa dimensão? Por que o atrito entre governo do estado e professores no estado de São Paulo não despertou no brasileiro essa necessidade de repensar o rumo do país? Ao contrário, foram assunto subalternos, pormenores, na maioria das vezes de foro íntimo que se tornaram o principal critério de escolha de voto à presidente da República.
Os oposicionistas foram perspicazes. Serra e o PSDB não começaram vinculando calúnias contra a adversária já no início de seu horário eleitoral. Esperaram, pois sabiam que uma força anti-PT caminhava muito fortemente para uma campanha anônima via web, e que em um momento oportuno o ataque seria fatal. As declarações dadas por Dilma Rousseff sobre o aborto não são nada polêmicas para quem já se envolve há algum tempo com esse tipo de discussão, mas demonstrou ser ainda muito arriscado para pessoa que postula a cadeira máxima de um cargo executivo no país. A democracia que vivemos na prática é aquela que obriga os candidatos a se moldarem, a serem cristãos mesmo não sendo, a atentarem contra a liberdade da mulher em nome de um princípio divino, a impedirem a luta de direitos de minorias porque a maioria se incomoda com o modo de vida que os levam à dignidade. A democracia brasileira, que permite que meios de comunicação demitam jornalistas por possuirem posicionamentos políticos divergentes, também permite esse terrorismo psicológico, permite que partidos utilizem a fé, o sentimentalismo e os valores de pessoas simples e transformem isso em foco principal para conquista de votos. Partidos, para reverter a situação de jogo perdido fazem da democracia brasileira o maior escarcéu, e botam na boca de pessoas que nunca assistiram a um debate político dezenas de argumentos para não votar em determinado candidato. Pior que isso, fazem com que pessoas se sintam responsáveis, culpadas por uma decisão mal feita, tornando-as militantes de uma não-causa, de um terrorismo psicológico de pessoas que nem vêem a fome e o desemprego como prioridades, mas a universalização de valores individuais.
As calúnias e mentiras que vem tomando conta do Brasil nesse período de campanha vem demonstrando que na política brasileira ainda vale tudo. Vale a negação de direitos, vale apelação para o ódio étnico, cultural e religioso, vale a persuasão e o terrorismo psicológico. Demonstra-se também que os ataques a valores que não sejam cristãos, heteronormativos e padronizados continuam sendo ainda a melhor forma de tentativa derrubar um candidato. Nem as calúnias, as mentiras, as privatizações,as paulada em professores, as alianças suspeitas com os meios de comunicação surtem tanto efeito como o preconceito. E aí a população se torna a vítima. Uma vítima que acredita ser autônoma, e que, quando resiste aos ataques e decide não mudar seu voto, acaba ficando em silêncio e não manifestando seu apoio a um candidato massificadamente rejeitado pelo senso comum político.
Temo em dizer que o senso comum político não nasce da massa, mas para a massa. Ora, minha avó que nunca acessou internet na vida não deixa de ser vítima das calúnias eleitoreiras que surgem nesse momento. Mas fica ainda a esperança, de que a história do Brasil nesse início dessa segunda década do século XXI será marcada pela resistência, e o povo, na sua maioria vai cumprir a trajetória, mesmo que moralmente amordaçado, mesmo sob terrorismo psicológico, para escolher um Brasil para todos, com mais liberdade, amor, e olhar preferencial para aqueles que mais necessitam.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
X Congresso de Educação do Norte Pioneiro - Resumo de Comunicação apresentada
ESCOLA E DIVERSIDADE SEXUAL - TOLERAR NÃO É O SUFICIENTE.
Walmor Chagas Fermino de Oliveira (G-UENP/CCHE)
Fábio Antonio Gabriel
(Orientador - UENP/CCHE-CLCA)
Pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisa em Filosofia, Educação e Sociedade - GEPFES
Se Simone de Beauvoir ao iniciar sua mais célebre obra afirma que ninguém nasce mulher, mas torna-se mulher, também é igualmente possível afirmar que ninguém nasce homem, mas assim se torna. O sistema educacional ocidental por todo o tempo negou esse pressuposto, quando percebemos enraizados nele diversos elementos que reforçam características preconceituosas e estereotipadas sobre gênero, sexualidade e diversidade sexual. Michel Foucault ao analisar os dispositivos de domínio da sexualidade nos faz pensar em diversos elementos discursivos, jurídicos, arquitetônicos, entre outros, que contribuem para a segregação sexual na sociedade. Será que esses dispositivos ainda permanecem presentes em nosso meio? Será que a escola, que deveria possuir um papel inclusivo, está, de fato, aberta para receber, respeitar e valorizar a diversidade sexual? Através de uma breve análise pretendemos mostrar alguns elementos que ainda hoje contribuem para a segregação de grupos não-hegemônicos no ambiente escolar, fazendo com que a escola ainda permaneça um ambiente hostil para alunos homossexuais, bissexuais e transgêneros, como é caso de discursos homofóbicos e taxativos, incitação ao silêncio da sexualidade, divisão de atividades por gênero, negação da existência da diversidade na escola e diversos outros preconceitos velados. Desmistificar os estereótipos de sexualidade a fim de dar visibilidade à causa LGBT no ambiente escolar se faz, juntamente com outras formas de inclusão, um desafio constante da educação desse século. Através de dados coletados entre educadores/as e educandos/as, é possível constatar que o mito da sociedade aceitante ainda está muito longe de se tornar um fato.
Palavras-chave: Diversidade Sexual. Educação. Dispositivo. Homofobia
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
SE FOR POSSÍVEL...
Se for possível eliminar fidelidade,
eliminar felicidade,
eliminar cumplicidade,
então acredito que exista amor.
Se é que poderei chamar de amor a dor que sinto.
Se é que se assemelha à dor essa palavra de luxo.
Seria inútil tentar viver como num conto de fadas.
Já há idealismo o bastante em desacreditar!
Imagina então o excesso,
seria o tormento!
eliminar felicidade,
eliminar cumplicidade,
então acredito que exista amor.
Se é que poderei chamar de amor a dor que sinto.
Se é que se assemelha à dor essa palavra de luxo.
Seria inútil tentar viver como num conto de fadas.
Já há idealismo o bastante em desacreditar!
Imagina então o excesso,
seria o tormento!
domingo, 13 de dezembro de 2009
COMIDA E SEXO - Uma discussão sobre moral
Como sabemos, nossa sociedade possui valores mutáveis, ou seja, uma moral que se transforma com a transformação da sociedade. Os valores que possuímos não são os mesmos que existiam há 200 anos, e o que temos como correto hoje, não será necessariamente assim nos próximos anos. Esses valores morais se transformam de acordo com as relações com outras culturas e as influências que recebem delas. Isso se chama dinâmica social.
Uma constatação feita por George F. Will em uma revista americana é que com o passar dos anos a comida vem tomando o lugar do sexo no que diz respeito à limitações. O assunto me despertou interesse, e embora com metodologia e argumentos diferentes dos dele, pretendo abordar esse assunto a partir da minha percepção.
Se fizermos uma análise histórica da moral ocidental desde o advento do cristianismo veremos que a sexualidade sempre foi vista como algo sagrado e ao mesmo tempo pecaminoso, impuro e errado. Sagrado, pois para o cristianismo sexo tem o significado de vida, mas só é moral quando usado com esse intuito. Prazer na vida sexual é sinônimo de pecado, a não ser que se sinta prazer apenas
É possível perceber que nas últimas décadas do século XX e nos primeiros anos do século XXI a moral ocidental vem seguindo por outros caminhos. Embora o cristianismo ainda se mostre forte e majoritário, até mesmo os cristãos vêm procurando formas alternativas de vida, não precisando, portanto, se considerar descrente e ateu. O que muda, evidentemente não são os dogmas da Igreja ou a formulação da Bíblia Sagrada, mas o efeito moral daquilo que o cristianismo impõe, e as interpretações que cada indivíduo ou grupo social faz dela. Como sabemos, o século XX foi o século dos movimentos sociais se estruturarem, assim se estruturou o movimento feminista, o movimentos LGBT, movimento negro, e, a partir daí vários movimentos de grupos que até então se sentiam excluídos ou desfavorecidos foram tomando força. Nesse cenário, não foi necessários que alguns grupos se desvinculassem da religião para defenderem suas causas, mas, em alguns casos, os movimentos sociais apresentavam uma nova interpretação religiosa sobre aquilo que defendiam. Como é o caso dos homossexuais, que não precisaram se voltar contra o cristianismo, mas assumiram o dever de reinterpretar os escritos bíblicos como forma de encontrar justificativa teológica para a igualdade sexual. E assim, o século XX foi contribuindo para a desconstrução do caráter pecaminoso e pervertido de algumas práticas sexuais.
Podemos perceber que ao longo dos últimos anos o sexo vem deixando de ser tabu, e que cada vez mais os pais se sentem preparados e até mesmo no dever de falar sobre esse assunto com seus filhos; a escola vem assumindo posicionamentos de responsável por uma boa educação (orientação) sobre sexualidade a seus alunos, e, a religião, vem se abrindo cada vez mais para discussões sobre respeito, tolerância e valorização da diversidade. Atualmente temos no Brasil a Pastoral das DSTs e alguns movimentos dos católicos homoafetivos.
Além da maior liberdade quanto à vida sexual privada, a sociedade também vem mudando alguns paradigmas quanto à vida sexual pública. Algumas roupas que outrora eram depravadas e imorais, hoje são anunciadas em propagandas na TV e nas revistas. Objetos e produtos que auxiliam na satisfação sexual também deixaram de ser imorais e passam a ser vendidos por catálogo porta-a-porta. E, a oferta de prazer como forma de sobrevivência passou a ganhar respaldo jurídico e, embora ainda não seja efetiva, a profissionalização da prostituição já possui seu espaço reservado nas discussões e discursos políticos.
Por outro lado, o que vem sendo alvo de privações e limitações é a alimentação do cidadão do século XXI. Aquilo que se põe à mesa está caminhando para corresponder àquilo que o sexo era há décadas atrás: imoral. No entanto, os julgamentos morais que se faz da comida possui estatuto moral diferente do julgamento do sexo. O discurso da alimentação saudável existe por motivos outros, que não são religiosos, e que, apesar de tudo, não chega a ser uma atitude desviante ou perversa. Um outro discurso relacionado com a alimentação é o do vegetarianismo, que, para uns é uma opção de vida saudável, para outros se trata de uma posição política que tende a ser um dos desafios do século XXI. O movimento em defesa dos animais, apesar de possui muitos membros praticantes de alguma religião, não pretende justificar sua tese com argumentos religiosos. As lutas em defesa dos animais se pautam no discurso mais coerente para o contexto histórico em que vivemos: o direito à vida e à liberdade. Ora, se a nossa liberdade vai até onde se inicia a do outro, porque é que o outro deve ser nosso objeto de consumo e satisfação? Diversos discursos anti-vegetarianismo defendem que os animais foram feitos por Deus para nos servir; ou que somos racionais, e por isso superiores a eles; ou até mesmo que se trata de seleção natural, sendo o homem mais inteligente e mais forte que alguns animais, deve deter o poder sobre ele. Esses argumentos são invalidados com facilidade por aqueles que defendem a causa dos bichinhos. Embora a moral alimentar venha crescendo de forma vagarosa, já conseguiu fazer algum barulho e mobilizar alguns políticos a apoiarem a causa. Seja no que diz respeito à estética meramente individualista (alimentação saudável), seja pela respeito ao meio ambiente ou à liberdade animal (liberdade individual) o movimento que visa colocar moralidade naquilo que se come se difere da privação sexual nos seguintes quesitos: antes se privava algo totalmente individual (os fetiches, as taras, os desejos), hoje se questiona aquilo que interfere na vida de outros seres, pondo limite na liberdade humana, questionando a supremacia humana diante dessa enorme teia da vida (antropocentrismo X biocentrismo), e buscando efetivar aquilo que se discute há muito anos; o respeito à diversidade na sua integridade.
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